Talvez te deixar tenha sido a coisa mais horrível, cruel, insensível e burra que eu tenha feito com nós duas, porém ao mesmo tempo a mais corajosa. Bom, ao menos teria sido se eu tivesse conseguido te dizer o porquê de eu estar partindo. Teria sido se eu tivesse conseguido olhar nos seus olhos mais uma vez sem querer arrancar os meus.
Eu não podia ficar. Eu não entendia o que era amor porque eu não sabia o que era compromisso. Isso é uma verdade. Mas eu também não sabia te amar. Sempre foi tudo muito confuso, intenso e doloroso para mim... Todas aquelas sensações que você me causava - um caminhão passando sobre o meu estômago quando eu te encontrava, uma arma mirada na cabeça quando eu não sabia o que dizer ou como te dizer, os sinos de igreja e o coral de anjos que cantavam dentro da minha cabeça quando eu ouvia que você me amava, giletes atravessando minha coxa quando você me olhava com aquele olhar que fazia eu me sentir uma pobre menina inocente. Até as coisas boas doíam. E foi quando eu aprendi minha primeira lição: o amor dói.
Nós sempre fomos muito. E muito sempre sobra quando somos pequenos. E, bom, eu era pequena. Eu pensava pequeno, eu sentia pequeno, eu queria pequeno. Quando eu te vi tão grande, primeiro fiquei ofuscada. Depois tentei ser maior do que eu podia. Claramente não deu certo. Eu não era/sou forte como eu tentava/tento ser. E aí você me disse que eu não precisava ser. E aí você me disse que forte mesmo é quem admite que tem fraquezas. E aí você me fez mulher. Você fez e faz eu querer ser uma grande mulher. Porém o fato é que eu não podia ou não sabia ser essa mulher que você merecia ter naquela hora. Existem fortes e fracos, isso é outro fato. E quando fui embora foi porque eu me achava pequena demais para você e achava você muito para mim, mas num sentido ruim, num sentido que pesava. Bom era egoísta, eu podia aguentar não te dar tudo que você merecia. Não eu não aguentava. Eu não entendia. Só não entendia.
E dessa minha ignorância prima nasceram outras tantas: a de achar que você me achava pouco, a de pensar que era um grande exagero tudo que era dito, a de te achar falsa, dissimulada e manipuladora. A de achar que éramos loucas de continuar dando murro em ponta de faca.
Depois da minha ignorância, eu vivi um tempo sendo animal. Sem alma. Sem espírito. Sem sentimento, só com emoções e sensações. Vivendo de prazeres. As vezes ouvia ela me chamar, mas ignorava. Pensava que consciência era coisa que gente que se limitava, coisa de gente sem liberdade. E a ignorância é confortável. Só que não. Quando você vive para os prazeres, se torna escravo dos seus próprios escravos. Eu era um corpo vivendo entre outros corpos e tudo que exigisse discernimento, eu me afastava. Tudo foi cinza e eu não me importa, porque eu era cinza também. Olhos tristes mas andando como uma vencedora.
Por um alinhamento planetário divino, eu percebi o quanto ainda te amava. O quanto eu ainda queria ser sua e que você fosse minha. E eu tive medo. Muito medo desse sentimento. Pensei no quão difícil seria te explicar tudo que eu vivi. Todas aquelas coisas sujas e horríveis que eu fiz. Pensei no quão difícil seria explicar tudo as outras pessoas: o amor que eu sempre senti por você e o quanto elas eram vazias. Pensei que seria impossível, que você nunca me aceitaria de volta. Que nunca teria ser perdão. Que você nunca enxergaria minha redenção. Que você nunca acreditaria na remissão dos meus pecados; E que talvez eu realmente não merecesse mesmo você de volta. Mas a alma falou mais alto e nada mais fez sentido depois desse despertar. Eu precisava tentar.
Você, por sua vez, estava maravilhosa, calma e dialética. Dentro de si e da sua razão. Foi compreensiva, e não fez perguntas que me apavorassem, que me fizessem ter coragem para concluir o plano diário de não viver mais. Você não quis me atropelar ou me jogar da janela do oitavo andar, quando eu mesma queria fazer isso comigo. Você foi tudo que eu precisava para me encorajar a ser feliz de novo.
A minha maior tristeza, a minha dívida eterna comigo mesma, o meu perdão que eu nunca vou ter é por ser idiota tetra graduada na arte de te fazer sofrer. Na arte de ser imbecil, babaca, idiota e escrota.
Ao mesmo passo que eu penso quero ser feliz do seu lado e vice versa, penso que eu nunca seria digna disso.
Mas eu acredito em Kharma. Então se os liptakas me puseram de volta contigo, alguma razão sensata devemos ter. Por isso, me desculpa. Eu sinto muito, mesmo, por tudo que eu fiz. E só fiz porque não sabia pensar em você. Não sabia o que era viver um relacionamento.
Eu te amo. Eu ainda estou aqui. Eu não vou embora.

Um comentário:
Redenção...a cura da alma...
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