Você diz que eu não te escuto quando você precisa. Você diz
que eu sou egoísta todos os dias. Você diz que eu não tenho educação e que sou
espaçosa demais e que por isso, te envergonho. Você diz que sou demasiadamente imbecil
algumas vezes e que sou burra demais sempre para entender o que você
sente/fala/pensa e, por isso, mantém o silêncio. Você diz que não espera nada
de bom de mim, pois tem certeza que eu nunca poderei fazer nada de melhor ou
diferente do que eu já fiz e que eu vou sempre te decepcionar quando você
voltar a confiar em mim, assim, num looping eterno onde eu sou sempre a pessoa
que estrago tudo e depois vai embora. Você diz que não precisa de mim e que é
melhor assim, pois eu nunca poderia te ajudar se você precisasse, evitando
assim sua frustração. Você diz que eu não te apoio, você diz que eu sou pouco,
sou fraco, sou mau.
Eu não te pergunto nada disso, mas você me diz mesmo assim. A única coisa que você não me diz é por que você ainda quer ficar comigo. Depois de todas essas coisas que você diz saber sobre mim, depois de ter consciência de todas as coisas que já te fiz e que volto a fazer, porque você ainda quer ficar comigo?
E por vezes eu me respondo: é por pena. Por receio. Por bondade.
Por benevolência. E talvez por esperança de que eu me torne outra pessoa. É por
amor.
Os estragos são incalculáveis e irreparáveis. Tanto para você quanto para mim. Por todas as vezes que eu te machuquei e te desapontei e por todas as vezes que você cravou no meu peito as unhas do rancor, por todas as vezes que você fuçou meus defeitos e me fez assumi-los como se fossem troféus, medalhas de honra ganhas em alguma batalha muito importante. Mas eu não me orgulho deles e você não me deixa superá-los. Vive trazendo-os à tona. E quando eles vêm à tona, vem sangue junto com eles. Vejo dor, vejo desespero. Vejo morte. Flash.
E por pena, você os deixa de lado e me conforta, como se eles fossem sumir quando você diz que me ama. E por vezes eles até ficam bem pequenos quando eu me sinto amada, mas isso não dura muito nem. Nem minha sensação traiçoeira de me sentir amada, nem meus defeitos diminuídos. A ironia é que toda vez que eles voltam, parecem maiores. Toda vez que você me faz encará-los, eles criam uma nova cabeça, uma nova forma ainda mais assustadora, de modo que é cada vez mais difícil diminuí-los e seguir em frente.
Acho que o coração sabe mais que nós. O Amor pode ser inapropriado, talvez inconveniente e até mesmo perigoso. Faz-nos fazer coisas que nunca imaginaríamos fazer... Mas errado? Não acredito que o amor possa estar errado alguma vez. Errados somos nós, que não sabemos lidar com nós mesmo e com as nossas diferenças. Errados somos nós, com toda nossa arrogância e orgulho, tentando nos defender, justificar e nos esquivar de cada ataque que sofremos, mesmo quando não são ataques. Errados somos nós com a falsa pretensão de que podemos entender tudo sem confirmar com o outro a veracidade das nossas conclusões sobre ele porque nos achamos espertos demais e confiamos no outro de menos. Errados somos nós que tentamos transformar o outro em alguma coisa para que possamos gostar dele ao invés de simplesmente... gostar, tolerar, aceitar, receber de bom grado o que lhe é oferecido de corpo, alma e coração. Errados somos nós, inflexíveis, inseguros, indelicados, idiotas, indecifráveis, ignorantes.


